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  • Carla Porto

Consciência

Há quase três anos trabalho em uma unidade de pronto atendimento – UPA e desde que entrei e tive a oportunidade de acompanhar mais de perto os pacientes e suas famílias (conhecer um pouco de suas realidades) eu sempre tive um fascínio pelos pacientes oncológicos. Não sei explicar de onde isso vem, só sei dizer que são os casos que mais me chamam a atenção, os casos que eu mais me empenho, que busco conhecer melhor, resolver as pendências, fazer o possível para tornar o acesso deles aos serviços mais simples, ou ao menos dá a eles o direito de que saibam o que está acontecendo.

Mas como sempre, existem situações que balançam a gente, que nos sacodem e que apesar de nos desestabilizar nos levam a entendimentos que antes não tínhamos. Nesse caso, eu trombei com a história de uma americana que me trouxe outra perspectiva. Não a do sofrimento, que eu acompanho diariamente, nem das dificuldades, que são incontáveis, especialmente para quem depende de serviços escassos, lotados e que estão longe de garantir a dignidade que todas as pessoas merecem e deveriam receber. Essa história me deu o entendimento de que a vida é boa e pode ser cheia de momentos felizes apesar de qualquer situação, mesmo que a situação seja a de um câncer em estágio terminal. O que ela me mostrou foi que a questão não é se eu vou viver mais 30 anos ou se vou morrer na próxima madrugada, a questão é que se eu não posso decidir quanto vou viver, posso decidir como vou viver. Que poder maravilhoso, e ele está em mim, o poder da decisão que eu tomo a cada minuto e que está nas minhas mãos, não nas mãos de outras pessoas, nem nas situações e adversidades que acontecem na minha vida.

Ter consciência das decisões que tomamos e porque as tomamos faz tanta diferença, esse movimento consciente pode nos ensinar tanto sobre quem somos e o que realmente buscamos na vida, essa foi outra lição que essa americana me deu. Os mais apressados nos julgamentos poderiam argumentar que uma americana não vive a realidade das urgências brasileiras, do sistema público, que muitas vezes inviabiliza o tratamento do câncer pela indisponibilidade de vagas, ou mesmo a situação de pobreza que boa parte dos pacientes oncológicos que atendemos vivem. A esses eu posso garantir que estas questões são sim muito importantes e são elas que me movem no meu trabalho, mas apesar delas vejo nos pacientes oncológicos que atendemos a mesma certeza e a mesma busca pela vida, até o último minuto. Nesse minuto não existe diferença de nacionalidade, de classe social, de nível intelectual, a morte é o momento de maior igualdade, nesse minuto somos apenas seres humanos.

Outros podem pensar que essa é uma questão boba ou uma constatação meio óbvia, mas quando eu vi a história dessa moça de 30 anos, com câncer em metástase e 2% de chances de sobrevivência, eu passei a olhar para o meu poder de escolha não só com a razão, mas também com a emoção. A emoção de olhar para a vida pulsando mesmo na iminência da morte, a emoção de ouvir a declaração dela “2% importa, não é 0%, é muita coisa”. Um dia de vida importa, é muita coisa, em algumas situações é apenas o que temos.

Triste é quando nos damos conta de que algumas pessoas precisam de um câncer para perceber que nem mesmo se conhecem e que passaram a vida toda apenas cumprindo obrigações, fazendo as escolhas que agradam a outras pessoas, conquistando coisas que nem eram mesmo tão importantes e necessárias, vivendo sem a consciência do porquê de cada decisão tomada. Por isso, essa história foi tão importante para mim, eu não quero me encarar no meu último minuto e vê alguém que não se escolheu, que perdeu a oportunidade de ser verdadeira por medo do julgamento ou das críticas das outras pessoas, que abriu mão de si mesma para se encaixar no que é importante para outras pessoas. No último minuto não existem outras pessoas, é você com você mesmo e eu quero olhar para mim no meu último minuto e sorrir, sorrir porque vivi cada dia como aquela moça viveu os seus 2%. Esse é um desafio diário e que requer coragem e muita disposição para admitir que algumas coisas, situações e até mesmo pessoas não fazem mais sentido na minha vida e que é preciso abrir mão, deixar ir e assumir o que de fato faz sentido para mim, não para outras pessoas.

Um passo de cada vez espero estar a cada dia mais consciente do que realmente importa para minha vida.


Que possamos viver bem os nossos 2%.


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